concha
Mais uma vez aconteceu. Basta. Tô fechando minhas cortinas, trancando a porta, colocando os sonhos em baús empoeirados e escondendo a chave de mim. Tô quebrando os pratos e juntando os cacos, tô apagando o colado; Tô varrendo a poeira e guardando-a em mim, tô desamarrando, despedaçando e espalhando pétalas; Tô jogando água fria na brasa, pondo ponto final entre vírgulas. Tô lendo o emaranhado, rabiscando o velho jeito, tô querendo nada. Tô beijando com ardor a faca de dois gumes, acariciando os espinhos; Tô dando fim a Cronos e Cairós. Tô recolhendo a esperança, prendendo a expectativa e fazendo-a se calar; Tô rasgando o rejunte, gritando amordaçada, prisioneira da auto-desconfiança. Tô olhando no espelho, abraçando o medo, tomando chá com a culpa. Tô entrando na minha concha, ficando no escuro, nada de barulho. Talvez ela volte a se abrir quando eu for capaz de amar menos do que amo e quem sabe assim, dentro dela, encontrem uma pérola ao invés de mim.

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