quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

A Idade da Razão.

Os dias mais recuados de sua infância, o dia em que dissera: "Serei livre", o dia em que dissera: "Serei grande", apareciam-lhe, ainda agora, com seu futuro particular, como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles, e esse futuro era ele, ele tal e qual era agora, cansado e amadurecido. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham suas exigências, e ele tinha amiúde remorsos abafantes, porque o seu presente negligente e cético era o velho futuro dos dias passados. Era a ele que eles tinham esperado vinte anos, era dele, desse homem cansado, que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças; dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre, ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. Seu passado sofria sem cessar os retoques do presente; cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza, e cada novo dia tinha um novo futuro; de espera em espera, de futuro em futuro, a vida dele deslizava docemente... em direção a quê?

Jean-Paul Sartre 
SARTRE, J., A Idade da Razão, 1945

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

J.S

 Fragmentos de um escritor que tanto amo e admiro; 


Ora, a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso é, Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Você está a tresvariar, tudo quanto menciona está ligado entre si, aí não há nenhuma solidão, Deixemos a árvore, olhe para dentro de si e veja a solidão, Como disse o outro, solitário andar por entre a gente, Pior do que isso, solitário estar onde nem nós próprios estamos.

Eu sou uma ilha desconhecida, perdida algures neste oceano. Não me conheço, não me sinto, não me tenho e quando me procuro, não me encontro. Tento dar um pouco de mim, todos os dias. Tento libertar-me e gritar quem sou. De que me serve tudo isso? Sou uma ilha desconhecida, igual a qualquer outra. E como qualquer outra, espero um barco que me mostre, afinal de contas, quem sou eu e o que faço perdida no oceano, no meio de tantas ilhas todas diferentes, todas distantes.

(Somos todos uma mera ilha desconhecida. Partilhamos o mesmo oceano, mas não partilhamos os mesmos rumos. Somo-nos desconhecidos. Não nos conhecemos a nós próprios, muito menos aos outros.)







quinta-feira, 29 de junho de 2023

capítulo 11, ”perda: amar na vida e na morte”.

 ”Muitos de nós passam a amar a vida apenas quando confrontados com doenças que a colocam em risco. Com certeza, encarar a possibilidade da minha morte me deu coragem para olhar de frente a falta de amor em minha vida. Muitas obras contemporâneas visionárias sobre a morte e o morrer destacam o aprendizado de como amar. Amar permite que transformemos a nossa celebração da morte em uma celebração da vida. Em uma carta jamais enviada a um de meus amores verdadeiros, escrevi: ‘Durante o funeral da irmã, minha amiga fez um discurso do qual declarou: ‘Sua morte fez com que nós a amássemos completamente’. Somos muito mais capazes de abraçar a perda de pessoas íntimas que amamos ou de amigos quando sabemos que demos a eles tudo o que podíamos – quando compartilhamos com eles o reconhecimento mútuo e o pertencimento no amor que a morte jamais poderá mudar ou tirar de nós. A cada dia, sou grata por ter conhecido um amor que me permite aceitar a morte sem qualquer medo de incompletude ou falta, sem qualquer sensação de arrependimento irreversível. Esse foi um presente que você me deu. Eu o aprecio; nada muda o seu valor. Ele permanece precioso’. Amar faz isso. O amor nos empodera para viver plenamente e morrer bem. Então, a morte se torna não o fim da vida, mas uma parte dela”.



Bell Hooks

sexta-feira, 14 de abril de 2023

EU, Aprendiz

Sendo eu, um aprendiz
A vida já me ensinou que besta
É quem vive triste
Lembrando o que faltou
Magoando a cicatriz
E esquece de ser feliz
Por tudo que conquistou
Afinal, nem toda lágrima é dor
Nem toda graça é sorriso
Nem toda curva da vida
Tem uma placa de aviso
E nem sempre o que você perde
É de fato um prejuízo
O meu ou o seu caminho
Não são muito diferentes
Tem espinho, pedra, buraco
Pra mode atrasar a gente
Mas não desanime por nada
Pois até uma topada
Empurra você pra frente
Tantas vezes parece que é o fim
Mas no fundo, é só um recomeço
Afinal, pra poder se levantar
É preciso sofrer algum tropeço
É a vida insistindo em nos cobrar
Uma conta difícil de pagar
Quase sempre, por ter um alto preço
Acredite no poder da palavra desistir
Tire o D, coloque o R
Que você tem Resistir
Uma pequena mudança
Às vezes traz esperança
E faz a gente seguir
Continue sendo forte
Tenha fé no Criador
Fé também em você mesmo
Não tenha medo da dor
Siga em frente a caminhada
E saiba que a cruz mais pesada
O filho de Deus carregou


Bráulio Bessa

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

 ...há impossibilidade de ser além do que se é -
no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio,
sou mais do que eu, quase normalmente -
tenho um corpo e tudo que eu fizer é continuação
de meu começo......
a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo.
Quem sou? Bem, isso já é demais...

quinta-feira, 25 de junho de 2020

EU


escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta
própria e auto-risco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do
tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever. Há tantos anos
me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo
de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de
ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim.

in UM SOPRO DE VIDA

História

Nessa história diferente
O inteligente que se perde em sua mente
Mas é assim, eu já sabia
Quando as perguntas já se tornam sua rotina
E, de repente, perdeu a força
E o grito é tudo que consegue sair da sua boca
E o medo bate, mas não disfarce
Grite para quem consegue te ouvir
Não se cale, siga em frente
O mundo gira e tudo volta diferente
Maturidade não é idade
É assumir que o sofrimento fez parte
Do processo da cura pro medo e pra angústia
E que o choro é o que rega a semente mais escura
E você tem um Pai disponível
Que não se cansa de dizer que está contigo
Chame-o com fé e Ele responderá
Me socorre do meu próprio entendimento
Achei saber, mas me perdi, estou com medo
Não tenho forças nem pra me mexer
Preciso de um Pai, um Deus pra me defender
Assumo que errei e perdi o controle
Assumo estar fraco e sem ninguém por perto
Me ajuda, me ajuda, me ajuda, me ajuda
Me socorre do meu próprio entendimento
Achei saber, mas me perdi, estou com medo
Não tenho forças nem pra me mexer
Preciso de um Pai, um Deus pra me defender
Assumo que errei e perdi o controle
Assumo estar fraco e sem ninguém por perto
Me ajuda, me ajuda, me ajuda, me ajuda

La Yugular

  7 heavens Big deal I wanna see the 8th heaven 10th heaven Thousandth heaven You know, it's like Break on through the other side It...